Por Vicente Criscio
Publicado originalmente em 17/01/2024 no linkedin de Vicente Criscio

O assunto hoje é pescado. Mais precisamente, sobre o muitas vezes maltratado e ainda assim resiliente mercado de tilápia.

O Brasil é um dos cinco maiores produtores de tilápia do mundo. E já dando um spoiler, poderá (ou poderia) se tornar o maior produtor mundial em cinco anos.

Temos a maior superfície de lâmina d’água do planeta. As condições climáticas são adequadas. Produzimos em larga escala grãos e soja, a principal matéria prima da ração da tilápia de cultivo.

O produto brasileiro é BOM, criado em tanques-rede ou tanques escavados. As indústrias, apesar de todos os entraves burocráticos e governamentais, vêm apresentando crescimento. Tecnologias e processos que vão desde o estudo do alevino e sua alimentação até a fase adulta, nove meses depois, em busca de maior rendimento – relação carne extraída no filé e o peso do peixe – vêm ocupando a pauta de executivos, donos e acionistas das empresas desse fantástico setor.

E isso refletiu-se no aumento da produção. Após o “crash” da nossa economia em 2016, a produção de pescado nacional cresceu de forma consistente – onde a tilápia representa 64% dessa produção. O quadro abaixo é da PeixeBr:

Conteúdo do artigo
Produção de Peixes de Cultivo no Brasil; fonte PeixeBr; dados até 2022

Mas se temos um país tropical, abençoado por Deus, com todas as condições para se transformar no maior produtor de tilápia mundial, os nossos políticos acabam com qualquer vantagem competitiva duramente construída.

Senão, vejamos: apesar de sermos um dos cinco maiores produtores de tilápia do mundo, o Brasil é (dados de 2022) apenas o décimo maior exportador para os USA, ficando atrás de países como China (óbvio), Colômbia, Costa Rica e outros (a fonte é a PeixeBr).

Por quê? Custo logístico, pandemia (que afetou o custo do frete aéreo e inviabilizou a exportação entre 2020 e 2021), alto custo de capital, necessidade de investimentos nas diferentes certificações exigidas pelo mercado americano, e uma briga feroz com os competidores de outros países.

E indo um pouco mais a fundo na análise, o custo da tilápia brasileira ainda é pouco competitivo com o de outros mercados porque aqui não temos a escala suficiente para fazer com que custos e despesas – principalmente o custo fixo, dado que é uma indústria de capital intensivo – estejam diluídos de forma a potencializar a margem final.

E, se o custo é alto também (ou principalmente) pela falta de escala, o que a indústria precisa para ser mais competitiva?

Maior produção! Para termos maior produção precisamos de….. consumo. Quanto mais consumidores de filé de tilápia no mercado brasileiro, maios a necessidade de produção, que vai diluir mais ainda os custos fixos, e deixar mais barato o filezinho de tilápia nosso de todo santo dia.

Entretanto, temos obstáculos. O setor de produtores de tilápia é muito fragmentado – excluindo aí dois ou três jogadores com maior volume. Assim, muitos competidores brigam por centavos no custo do filé, e o varejo de alimentos se aproveita disso e espreme mais ainda esses produtores.

Outra: a automação da indústria, que reduz custos e melhora produtividade, e que em outros países é financiada com apoio governamental, aqui é deixada de lado pelo BNDES, que parece ter outras prioridades do que aquelas ligadas ao desenvolvimento da indústria de cultivo de pescados brasileira.

Mas não bastasse tudo isso, vemos, no artigo de 16 de janeiro de 2024 do portal Oeste Notícias, que o Governo passará a importar tilápia do Vietnã, mais barata que o custo da produção naciomal.

Pra quem não acompanha de perto este setor, o Brasil chegou a importar tilápia do Vietnã entre 2012 e 2013. Mas a importação foi suspensa por temas sanitários.

Pois é…..

E qual o efeito prático dessa importação a esses preços? em se comprovando essa notícia, o consumo de tilápia produzida no mercado interno vai cair. Dado que seu custo é altamente correlacionado com a escala, este custo deve aumentar, reduzindo mais ainda a competitividade dos produtos brasileiros, seja contra a tilápia importada, seja para exportação.

Então o caminho é transformar esse limão em limonada. E tentar extrair as oportunidades!

A oportunidade: as empresas produtoras de tilápia no Brasil precisarão sair de uma certa “zona de conforto” dentro do mercado nacional e correr (mais ainda) atrás do mercado externo. Entretanto, levar seu produto – que é invariavelmente muito bom – para o mercado externo não é uma tarefa simples. Principalmente quando falamos do maior mercado para nós, o americano (e canadense).

Portanto a oportunidade aqui é preparar-se rapidamente para oferecer:

o filé de tilápia fresco – que demanda uma logística muito complexa e delicada, certificações, padrão de qualidade diferenciado;

– e TAMBÉM o filé de tilápia congelado – que demanda as mesmas certificaçõers e padrões de qualidade, mas onde a briga com os produtos chineses é bastante grande, seja pelo preço que eles chegam no mercado americano, seja pela apresentação do produto e penetração no mercado de “private label”.

Mas essa decisão do Governo traz riscos inerentes? O mais óbvio: muitas indústrias podem colapsar. Principalmente porque vão sentir no caixa a provável queda nas vendas no mercado interno, bem como a queda nos preços.

Poderemos assistir uma aceleração nos processos de fusões e aquisições do setor, onde (usando uma metáfora infame) o peixe maior vai comer o peixe menor.

Fortes emoções aguardam executivos, donos, sócios, acionistas, colaboradores e fornecedores do setor de tilápia. Quem viver, verá!

Saudações!