Juros altos, crédito seletivo e um novo protagonista — o agronegócio — redesenham o mapa da crise de endividamento das empresas brasileiras

No final de 2023, publiquei aqui um artigo comentando o crescimento aparente no número de pedidos de recuperação judicial (RJ) no Brasil. Passados quase três anos, os dados mais recentes da Serasa Experian confirmam que aquele movimento não foi um pico isolado: 2024 e 2025 bateram recordes sucessivos, e 2026 começou no mesmo patamar de pressão. Vale a pena atualizar a análise — os números, os setores mais afetados e, principalmente, o que isso significa na prática para quem administra uma empresa hoje.

Os números: recorde atrás de recorde

Em 2024, o Brasil registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial, o maior volume da série histórica iniciada em 2005 e uma alta de 61,8% em relação a 2023. O movimento foi puxado sobretudo pelas micro e pequenas empresas, com 1.676 pedidos (+78,4%), enquanto Serviços (928) e Comércio (575) lideraram por setor.

Em 2025, a Serasa Experian atualizou a metodologia do indicador, passando a diferenciar “processos” (casos na Justiça) de “CNPJs” (empresas de fato envolvidas, já que um único processo pode reunir vários CNPJs de um mesmo grupo). Pela nova leitura, foram 977 processos de RJ no ano — maior volume desde 2016 (+5,5% vs. 2024) — envolvendo 2.466 empresas, um recorde da série histórica e alta de 13% em relação ao ano anterior.

O ano de 2026 começou no mesmo tom. Janeiro registrou 53 processos envolvendo 126 empresas, e o primeiro trimestre fechou com 194 pedidos de RJ, mantendo a trajetória de alta. Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o cenário de juros ainda elevados e desaceleração da atividade econômica segue pressionando não só o custo financeiro das empresas, mas também sua geração de receita e fluxo de caixa.

A taxa de crescimento está desacelerando — mas o patamar continua elevado

Olhando a série de empresas (CNPJs) em recuperação judicial de forma comparável ano a ano, o ritmo de expansão vem perdendo força: alta de 36,2% em 2023, 26,4% em 2024 e 12,9% em 2025. Ou seja, o crescimento desacelerou, mas isso não é sinônimo de melhora — o volume anual de pedidos permanece bem acima do padrão histórico, e a própria Serasa Experian pondera que a queda no ritmo de 2025 “não garante” repetição do movimento em 2026, dado que a Selic segue em patamar restritivo e a inadimplência de pessoas jurídicas continua alta: 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de sete restrições por empresa — um indicador que historicamente antecede novos pedidos de recuperação judicial.

Um dado que vale registrar: os pedidos de falência, ao contrário dos de RJ, vêm caindo (-3,5% em 2024 e -19% em 2025), o que reflete menos o alívio das empresas e mais a consolidação da recuperação judicial e de instrumentos de cobrança mais eficazes como via preferencial para reorganizar — ou encerrar — dívidas. Esse é um tema relevante que demonstra que a RJ não é o fim do mundo (também falei isso em artigo de tempos atrás) mas precisa ser bem feita e bem conduzida. Assunto pra outro momento…

Voltando ao ponto, quem está sendo mais afetado? O agronegócio assumiu a liderança!

A principal mudança estrutural em relação ao meu artigo de 2023 está na composição setorial. Em 2024, Serviços (928 pedidos) e Comércio (575) concentravam a maior parte das solicitações. Em 2025, a Agropecuária assumiu a ponta: 30,1% das empresas em RJ (743 CNPJs), levemente à frente de Serviços, com 30% (739). Comércio (21,7%) e Indústria (18,2%) completam o quadro.

A trajetória do agro é o dado mais expressivo da série: o setor saltou de apenas 1,3% do total de recuperações judiciais em 2012 para 30,1% em 2025. Em 2026, o movimento se aprofundou — a agropecuária encerrou o primeiro trimestre com 539 empresas em RJ, alta de 9,3% frente ao quarto trimestre de 2025, o maior avanço entre os grandes setores da economia. Em termos proporcionais, a situação é ainda mais crítica: cerca de 12,6 em cada mil empresas do agro estão em recuperação judicial, quase o dobro da indústria (6,49 por mil) e seis vezes a média nacional (2,04 por mil).

Os motivos são específicos do setor: custos elevados de insumos dolarizados (fertilizantes e defensivos), exposição cambial, oscilação de preços de commodities e um ciclo financeiro longo entre safra e entressafra, que amplifica a volatilidade de receita e caixa — mesmo em anos de safra forte. Serviços e Comércio, por sua vez, seguem pressionados por um mix de juros altos e demanda mais fraca, ainda que com peso relativo em leve queda frente ao agro.

Por que isso está acontecendo

Os relatórios da Serasa Experian e a leitura de especialistas do setor convergem para um conjunto recorrente de causas, que convenhamos, são um tanto óbvias:

  • Juros altos e persistentes. Selic em patamar restritivo há um período prolongado, elevando o custo da dívida e reduzindo a margem de manobra financeira das empresas.
  • Crédito mais caro e mais restrito. Bancos e financeiras mais seletivos na concessão, dificultando a rolagem de dívidas e o acesso a capital de giro justamente quando as empresas mais precisam dele.
  • Demanda desigual entre setores. Desaceleração da atividade econômica afeta a geração de receita, enquanto o custo financeiro segue elevado — um efeito-tesoura sobre o caixa das empresas.
  • Inadimplência empresarial em alta. 8,7 milhões de CNPJs negativados no país, com dívida média superior a R$ 23 mil — indicador que historicamente precede novas ondas de recuperação judicial.
  • Fatores setoriais específicos. No caso do agronegócio, câmbio, preço de commodities e custo de insumos dolarizados se somam aos riscos climáticos e biológicos tradicionais do setor.

Conclusão: como evitar… ou, na pior das hipóteses, como se preparar

Para empresas que hoje sentem os efeitos perversos da taxa de juros elevada e do baixo crescimento econômico, alguns cuidados podem fazer a diferença entre evitar uma recuperação judicial ou, se ela for inevitável, chegar a esse ponto em condição de negociar — e não apenas de reagir:

  1. Antecipe-se e monitore os sinais de alerta. Acompanhe de perto indicadores como geração de caixa, prazo médio de recebimento e pagamento, nível de endividamento e cumprimento de covenants. Quanto mais cedo o sinal de alerta é identificado, maior o leque de opções disponíveis — inclusive a via extrajudicial, que vem ganhando espaço (a proporção de pedidos judiciais para extrajudiciais caiu de 26:1 em 2023 para 16:1 em 2024-2025).
  2. Reestruture a dívida com antecedência, não sob pressão. Priorize o alongamento de prazos e a diversificação de fontes de crédito antes que a inadimplência se instale. Para empresas expostas a câmbio ou a commodities — como no agronegócio —, instrumentos de proteção (hedge) e disciplina no ciclo de caixa entre safra e entressafra são especialmente relevantes.
  3. Fortaleça a governança financeira e a disciplina de caixa. Revise a estrutura de capital, reduza alavancagem e corte custos não essenciais antes que a situação se torne crítica. Empresas que entram em negociação com credores ainda operando de forma saudável têm muito mais poder de barganha do que aquelas já inadimplentes.
  4. Se a RJ for inevitável, planeje-se antes de protocolar. Se a recuperação judicial se tornar o caminho necessário, o planejamento antecipado faz toda a diferença: um plano de recuperação realista, negociação prévia com credores estratégicos e assessoria jurídica e financeira especializada aumentam significativamente as chances de preservar a operação, os empregos e o valor do negócio ao longo do processo.

O quadro de 2026 ainda não mostra sinais claros de alívio. Enquanto a Selic permanecer em patamar restritivo e a inadimplência de pessoas jurídicas continuar elevada, é razoável esperar que os pedidos de recuperação judicial sigam em nível historicamente alto — com o agronegócio, meu ponto de maior atenção neste momento, no centro dessa dinâmica.

E por último, mas não menos importante: execução é fundamental! Cerque-se de pessoas que conheçam o processo de reestruturação, que tenham track record mais positivo que negativo e que tenham capacidade de ir do estratégico ao operacional. Não escolha pelo custo, mas pelo resultado (ou risco) envolvido.

Fontes: Serasa Experian — Indicador de Falências e Recuperações Judiciais (releases de jan/2025, abr/2026 e jan/2026); CNN Brasil; Forbes Brasil.

Texto publicado originalmente em 6 de agosto no linkedin de Vicente Criscio